Memórias, sumários de vida
18 de maio de 2025
Gerações, Darwinismo e os humanos
As memórias passam de geração pra geração. Hoje, estudamos textos de milhares de anos atrás, usamos conhecimento de outras gerações diariamente. Até onde eu sei, isso surgiu com os humanos; não conheço outro animal que tenha essa capacidade.
Darwin observou a seleção natural: os animais que fazem mutações genéticas favoráveis à vida sobrevivem mais, portanto têm mais chance de ter mais filhos, e assim perpetuar essas mutações. Isso não deixa de ser verdade para os humanos, mas há ainda algo além das mutações.
Quando desenvolvemos a comunicação, seja ela escrita, gestual, oral, ou de qualquer outro tipo, passamos a conseguir transmitir conhecimento entre nós. Qualquer coisa que aprendemos. E assim, duramos muito menos do que uma geração inteira para transmitir uma mudança significativa para nossos próximos. Se um de nós fez uma descoberta importante, rapidamente ela pode ser passada para os próximos, e logo a informação é de domínio geral da geração.
Por exemplo, Newton publicou a lei da gravidade após 44 anos de vida, muitos dos quais passou estudando e formulando a teoria. A partir do momento em que ela é publicada, ela é entendida por outros humanos que não precisaram passar todos esses anos estudando. Se considerarmos o entendimento dessa teoria como uma evolução, é como se o humano mais jovem entendendo a teoria tivesse distorcido o tempo para viver parte do que Newton viveu.
Hábitos e culturas
Esse caso se repete na humanidade. Não só descobertas vão sendo feitas, mas costumes e culturas vão sendo passados entre gerações.
As pessoas desenvolvem hábitos. Nem sempre eles são bons, mas por termos o livre arbítrio, geralmente conseguimos selecionar quais queremos para nossas vidas. Claro, é muito mais complicado do que isso. E estou excluindo daqui vícios como drogas, jogos, e outras causas que nos tiram do livre arbítrio. O que quero dizer é que uma pessoa, já no final de sua vida, provavelmente vai dizer que os hábitos que tem são os que mais funcionam para ela, e dificilmente estará disposta a trocá-los. Isso porque ela já teve o trabalho de uma vida toda para selecionar e cultivar esses hábitos. Não necessariamente são os melhores hábitos possíveis de se ter, mas no contexto dessa pessoa, foram os que melhor trouxeram ela até ali. Ela saberá dizer ao próximo se o hábito que ela desenvolveu é recomendável ou não.
Um hábito que é comum entre mais pessoas pode ser visto como parte de uma cultura. Muitas vezes, a formação dela está ligada a fatores geográficos de onde ela existe. A presença da palmeira de açaí na Amazônia fez com que o brasileiro desenvolvesse o hábito de comer a fruta do açaí, e hoje ele é parte de nossa cultura. Por ser um país quente, desenvolvemos também o hábito de comer essa fruta bem gelada para nos refrescar. Provavelmente, se o açaí fosse nativo da Suécia, ele seria consumido em temperatura ambiente.
Falando em culturas, não podemos dizer que uma é melhor que a outra, e portanto não seria justo dizer que os humanos com o livre arbítrio selecionam a melhor cultura para viverem. Na grande maioria das vezes, apenas nascemos dentro de uma cultura e aderimos a ela. Mas se experimentamos culturas diferentes, podemos fazer um intercâmbio cultural e trazer novos elementos para as nossas. Quando conheci pessoas que tiravam os sapatos na porta de suas casas antes de entrar, entendi isso como uma prática positiva, e passei a aplicar na minha vida. Isso se tornou um hábito novo para mim, e parte da minha cultura. Não posso dizer que é parte da cultura brasileira, mas conheço algumas pessoas que também fazem isso em suas casas, e talvez eu esteja contribuindo para no futuro isso fazer parte da cultura brasileira.
Se formos olhando então para como os hábitos e culturas vão passando e transformando entre gerações, podemos entender que cada pessoa, com sua individualidade, contribui com a evolução delas. As culturas se tornam melhores a cada geração, ao menos aos olhos das pessoas que fazem parte dela. Há casos em que as mudanças são tão grandes, e há tanta divergência na cultura, que a cultura anterior se transforma em duas outras. Um exemplo clássico: Coreia do Sul e do Norte, que uma vez foram o mesmo país. No momento da separação, a maioria de cada parte do país estava fazendo uma melhoria na sua cultura. Um exemplo menor e menos relevante: em alguns lugares do Nordeste do Brasil, as pessoas colocam o feijão por baixo do arroz (eu, como paulista, não consigo aceitar isso 😅). Novamente, cada cultura está fazendo do jeito que é certo para ela.
Sumários de vida
Cada pessoa está constantemente agindo da forma que acredita ser a melhor para ela, com os hábitos que ela adquiriu, que são os que ela entende como melhores (partindo do pressuposto de que ela tem livre arbítrio). Podemos entender isso como as pessoas agindo conforme um sumário de suas vidas, de suas experiências, de tudo que aprenderam. A nossa memória funciona de forma interessante, ela vai descartando o que não tem relevância, mas o que tem importância vai se cristalizando. A memória é viva no entanto, e nosso cérebro erra, muitas vezes lembramos de coisas que não aconteceram. Mas seja o que for que estamos lembrando, isso tem importância para o nosso presente.
Se vamos conversar com uma pessoa que acabou de fazer uma viagem marcante, e queremos saber de algo que foi especial para ela, não precisamos perguntar qual foi a melhor comida que ela comeu, o passeio que ela mais gostou, a melhor festa que ela foi. Se pedirmos simplesmente para ela contar sobre qualquer coisa que vier à cabeça dela sobre a viagem, isso será algo interessante. Por mais boba que pareça a experiência que a pessoa contar, é uma experiência que ela lembra, em uma viagem que certamente houveram várias experiências, então significa que tem importância para ela. E se tem importância, é interessante. Às vezes, a gente não sabe nem explicar o porquê da importância de certos acontecimentos, pode estar no nosso subconsciente, mas se lembramos, é porque eles têm importância.
Somos como uma máquina do tempo: capazes de sumarizar todos esses anos de vida no presente. E assim como Newton passou um conhecimento inovador e que resumiu muitos anos de estudo aos 44 anos de idade, podemos estar passando agora um conhecimento importante que adquirimos durante as nossas vidas para uma pessoa próxima. Essa é a magia da evolução humana. Somos capazes de sumarizar nossas experiências e aprendizados. Nosso filho não precisa passar por toda a experiência que passamos para aprender a lição que queremos passar, podemos somente contar a história para ele. Embora muitas vezes ainda assim seja bom viver a própria experiência para ter um entendimento mais profundo.
Com o avanço da tecnologia, fica cada vez mais fácil sumarizar e passar conhecimento entre gerações. Em alguns milhares de anos, fomos da escrita em pedras até a Internet, e hoje conseguimos passar um conhecimento de um lado do mundo para outro em questão de segundos. Estamos num ponto em que muito conhecimento é gerado, informação para todo lado nas redes sociais, mas muito dele é de pouco valor. O que será relevante desse conhecimento sendo gerado hoje, daqui a 1000 anos? Impossível dizermos agora, mas o que é certo, é que o que é mais importante para a humanidade será lembrado. Assim como lembramos dos eventos marcantes das nossas vidas, a humanidade lembra e estuda os textos de Platão até hoje, por exemplo.
A fonte infinita de autenticidade
Dito tudo isso, ainda há um fator que não mencionei: a criatividade. Não somos só um apanhado das experiências que vivemos e aprendemos. Estamos também criando nós mesmos, o tempo todo. E acho que isso é o mais lindo da vida. Cada pessoa é completamente única, tem uma fonte infinita de autenticidade. Nos nossos tempos, isso fica às vezes um pouco apagado, porque estamos o tempo todo consumindo qualquer tipo de informação na internet, e pensamos que tudo já foi descoberto. Mas se formos conversar com cada pessoa, entendemos que cada pessoa tem seu jeito único, autêntico, especial de se comunicar, de pensar, de interagir com o mundo. E por mais que esse jeito seja condicionado pelas experiências e pelo mundo que as pessoas conhecem, ele também é oriundo dessa fonte infinita de autenticidade.
Esse texto é fruto da minha própria autenticidade, além das experiências e dos aprendizados que eu tive durante a minha vida. Fico feliz de poder registrar e compartilhar um pouco de tudo isso por aqui.
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